Reimaginar, Cabo Verde e a narrativa das Grandes Nações Oceânicas
“O
oceano é História” -Derek Walcott, Nobel
da LiteraturaHá palavras que chegam no momento exacto.
Reimaginar é, hoje, a palavra das Nações Unidas para o Dia Mundial dos Oceanos.
"beyond the World we know" (para além do Mundo que
conhecemos), fixa uma nova relação com o
oceano.É um convite, mas
para Cabo Verde, é mais do que isso. É um imperativo. Porque o oceano não é,
para nós, um recurso a explorar ou uma fronteira a defender. É a nossa origem,
o nosso destino, a nossa identidade mais profunda. E reimaginá-lo significa,
antes de tudo, reimaginar a nós próprios.O paradigma que nos
aprisionaDurante décadas, Cabo Verde foi classificado,
nas instâncias internacionais, como um "Pequeno Estado Insular em
Desenvolvimento", SIDS na sigla inglesa. A expressão tem uma intenção benigna
de reconhecer as vulnerabilidades específicas dos
Estados insulares, a sua exposição às alterações climáticas, a sua dependência
de economias externas, e os custos acrescidos da insularidade.No entanto as palavras têm peso,
e "pequeno" e "em
desenvolvimento" constroem, ao longo do tempo, uma narrativa de periferia,
ou seja, de fragilidade estrutural. Uma definição de quem recebe e não de quem lidera, de quem reage às mudanças do mundo e não de quem as
antecipa. É uma narrativa que, mesmo quando bem-intencionada, nos coloca sempre
na posição de objeto da história, raramente de
sujeito.Chegou o momento de mudar esta narrativa,
não por orgulho retórico, mas sim por necessidade estratégica.A narrativa das Grandes
Nações OceânicasCabo Verde tem uma área terrestre de cerca de
quatro mil quilómetros quadrados, sendo a
sua Zona Económica Exclusiva, o espaço
marítimo sobre o qual exerce direitos soberanos, uma área que cobre mais de 700.000 quilómetros quadrados de oceano.
Somos, no sentido mais literal da palavra, uma nação oceânica. A terra é o
ponto de partida, e o oceano é o território.Esta perspectiva não é apenas uma mudança de
vocabulário. É uma mudança de paradigma. As Grandes Nações Oceânicas, conceito que proponho como alternativa ao SIDS, não são definidas pelo que lhes falta em terra. São
definidas pelo que possuem no mar: biodiversidade incomparável, rotas
estratégicas, recursos ainda por cartografiar, e séculos de conhecimento sobre
como habitar o oceano sem o destruir.Num mundo em que o oceano se torna cada vez mais
central para a segurança alimentar global, para a regulação do clima, para a
produção de energia e para a conectividade entre continentes, ser uma Grande
Nação Oceânica não é uma consolação pela ausência de território continental. É
uma vantagem competitiva no século que está a ser construído.Cabo Verde no mapa do
OceanoTemos uma relação com o mar que nenhum manual de
economia azul consegue ensinar. Está na morna, nessa música que contém ao mesmo tempo a saudade de quem
partiu e a esperança de quem ficou à beira do cais. Está nas gerações de
cabo-verdianos que construíram as suas vidas em movimento, navegando entre
ilhas e continentes, entre línguas e culturas, carregando consigo a certeza de
que a distância não separa, conecta.Esta herança é um activo estratégico de primeira
grandeza. Num mundo que debate como governar o oceano, quem tem autoridade
moral para liderar essa conversa? Não são os países que olharam para o oceano
apenas como recurso. São os países que o habitaram,
que o conhecem por dentro, e que construíram sobre ele, durante séculos, a sua identidade
colectiva.Cabo Verde está entre esses países. E o Dia
Mundial dos Oceanos de 2026 é o momento certo para assumirmos esse papel com
ambição e sem complexos.Um momento histórico que
não podemos desperdiçarO mundo está a mover-se. O Tratado do Alto Mar,
aprovado sob os auspícios das Nações Unidas, representa o maior avanço na
governação oceânica desde a UNCLOS. O compromisso 30x30, proteger pelo menos 30% dos oceanos do planeta até 2030, ganha força política em todos os continentes. A economia
azul emerge como um dos sectores de crescimento mais promissores das próximas
décadas. As áreas marinhas protegidas tornam-se moeda de influência
diplomática.Estas janelas não ficam abertas para sempre.
Cabo Verde tem a posição geográfica, a legitimidade histórica e a visão
estratégica para ser um actor decisivo nesta nova ordem oceânica, não como receptor de decisões alheias, mas como arquiteto
activo da sua construção.O que nos falta, muitas vezes, é a coragem de
assumir essa narrativa sem o reflexo condicionado de quem se habituou a ouvir
que é pequeno, periférico e dependente.Da visão à acção:
construir a Grande Nação OceânicaQuando desenhamos uma narrativa,
para ser mais do que discurso, precisamos de a ancorar de forma concreta. E
aqui, em Cabo Verde, há trabalho a fazer,
urgente, específico e possível.O primeiro imperativo é a literacia oceânica.
Não podemos reivindicar o estatuto de Grande Nação Oceânica se as nossas
crianças não conhecem o mar que as rodeia. O programa Escola Azul, que tem
aproximado o oceano das salas de aula, merece ser apoiado e aprofundado no contexto cabo-verdiano, com currículos
adaptados à nossa realidade insular, às nossas espécies, às nossas correntes e
à nossa história marítima. Uma criança que cresce sabendo o nome dos corais que
vivem a cem metros da sua praia não é apenas um cidadão mais informado, é um guardião do oceano em potência.O segundo imperativo é transformar esse
conhecimento em acção comunitária. As comunidades costeiras de Cabo Verde, de
Santo Antão à Boavista, do Fogo a São Nicolau, possuem um saber ancestral sobre
o mar que nenhuma universidade substitui. É preciso formalizar esse saber,
certificar esses guardiões, e dotá-los de ferramentas, científicas, digitais e económicas, que lhes permitam proteger o oceano e, ao mesmo tempo,
construir meios de vida sustentáveis a partir dele. A economia azul não nasce
nos relatórios, ela nasce nas comunidades,
no pescador que sabe onde estão os cardumes e em que
época do ano, na mulher que conhece as marés
melhor do que qualquer instrumento de medição, e na juventude costeira que, se lhe dermos as ferramentas
certas, pode transformar esse conhecimento em empreendedorismo, em emprego digno,
em futuro.O terceiro imperativo é a continuidade e o
reforço de iniciativas como a Ocean Week, que já
demonstrou ser capaz de mobilizar e de criar pontes entre a academia, o sector
privado, a sociedade civil e o poder público em torno da visão oceânica. Estas
plataformas não são apenas eventos, são o
laboratório vivo de uma nação que está a aprender a pensar o seu futuro a
partir do mar. Reimaginar Cabo Verde exige estas apostas. Não amanhã. Agora.Reimaginar é um acto
políticoA palavra que as Nações Unidas escolheram para
2026 não é inocente. Reimaginar pressupõe que a imaginação anterior era
insuficiente. Que o enquadramento com que olhámos para o oceano, como recurso a explorar, como ameaça a gerir, como
fronteira entre nações, já não serve o futuro
que queremos construir.Para Cabo Verde, reimaginar o oceano é
reimaginar o nosso lugar no mundo. É perguntar que tipo de nação queremos ser
no século XXI? Qual é a nossa contribuição única para os desafios da
humanidade? Como transformamos a nossa posição no Atlântico em influência
política e em prosperidade partilhada?Estas perguntas não têm resposta fácil,
mas exigem, antes de tudo, que nos recusemos a ser
definidos pelas categorias que outros criaram para nós. Pequeno Estado Insular
em Desenvolvimento é uma descrição. Não é um destino.O Oceano é a nossa
grandezaDerek Walcott, o poeta das ilhas do Caribe que
ganhou o Prémio Nobel da Literatura, escreveu numa das suas obras mais célebres
estas palavras que carrego comigo "The sea is History". Para os povos
insulares, o mar não é apenas geografia. É memória, resistência, identidade e
visão de futuro.Na semana em que se celebra o 8 de
Junho como
Dia Mundial dos Oceanos, proponho que Cabo Verde assuma, com convicção e com
orgulho, a narrativa das Grandes Nações Oceânicas. Não como slogan e sim
como projecto político e como visão de civilização.Porque não
somos pequenos, nunca fomos, e porque o oceano não é o nosso limite, mas sim, a nossa grandeza.
6/10/2026 8:10:40 AM