Falta de pluralismo no debate de ideias sobre identidade histórica de Cabo Verde
Pelas
intervenções feitas, porém, fica-se com a impressão que faltou a pluralidade de
experiências desejada, em particular da parte cabo-verdiana. Os painelistas
convidados na generalidade alinham pela única corrente de pensamento sobre a
história e a identidade cabo-verdiana que é aparentemente aceite na
universidade pública. Não estranha que em sintonia, nas suas intervenções, o PR
colocando-se mais uma vez no papel de activista, tenha reafirmado o recente encontro da Crioulidade na Praia como projecto
da humanidade e renovado o apelo à oficialização da língua cabo-verdiana.O evento pode ter
sido organizado para partilhar experiências da crioulidade, mas, de facto, foi
oportunidade para mais um exercício no quadro do processo em curso de
reafricanização dos espíritos. Não faltaram citações de Amílcar Cabral no
discurso do PR e de outros intervenientes. De um professor da UniCV ouviu-se
que “só faz sentido falar de governança, diplomacia e cooperação crioula como
parte de uma estratégia para reforçar a resistência pan-africana contra a
dominação eurocêntrica do sistema do mundo actual. Sem essa âncora política, a crioulidade
transforma-se num folclore inofensivo ao poder”. Ou seja, para se falar da
experiência de Cabo
Verde deve-se recusar o apelo dos Claridosos de “fincar o pé na terra” e falar a
partir de fora, a partir das reflexões sobre a luta de libertação na Guiné ou
então subordinando a análise da realidade do país às necessidades do
pan-africanismo. “Fincar o pé na
terra” poderia mostrar logo as diferenças básicas entre a realidade
cabo-verdiana e as dos países ou das ilhas convidados para o encontro: território deserto de pessoas quando “achado”
enquanto a generalidade das ilhas das caraíbas era habitada; arquipélago sujeito a secas
periódicas ao contrário de ilhas com chuvas regulares e intensas; agricultura praticamente
limitada a cultivos de sobrevivência versus economias de plantação para produção
de produtos ricos de
exportação (açúcar, tabaco, algodão) para Europa, ilhas isoladas e muitas vezes deixadas quase
abandonadas, ao contrário de ilhas e países com comércio crescente com várias
partes do mundo. Outrossim, a perda
de população para os territórios mais promissores (Brasil), as mortandades
causadas pelas secas periódicas e o isolamento que limitava o fluxo humano para
ilhas e o consequente empobrecimento geral teriam contribuído em Cabo Verde
para uma vida muitas vezes no fio da navalha ou nos limites da
sobrevivência. Menor
rigidez na estratificação social, menos dificuldade em aceder a propriedade e
constrangimentos para instalação de migrantes terão resultado num nível de
mestiçagem sem paralelo nos territórios ricos das plantações em que a riqueza
produzida suportava gente rica e branca na casa grande e escravos negros na
sanzala. Não admira que nas circunstâncias de Cabo Verde, diferentemente do que se
passa em Guadalupe, Martinica,
Jamaica, Maurícias em que os proprietários de terras são de origem europeia
colonial, se depara
com a realidade de não haver correlação directa entre ter propriedade e a cor
da pele. O enorme alcance
desse processo de cabo-verdianização vê-se pelo uso do crioulo por todas as
classes sociais e em todas ilhas, cada uma com a sua variedade. Diz do nível de abandono a que
as ilhas foram votadas e da pobreza das suas gentes o facto de que, em Cabo Verde, o uso do
crioulo se ter generalizado a um nível sem paralelo em outras realidades
“atlânticas”. E é assim porque quando há riqueza, o Estado está presente, impõe
a sua língua, as classes mais abastadas e as da classe média fazem questão de a usar. Toda essa
excepcionalidade que veio de se viver no limite terá contribuído para a emergência
da consciência da
nação, a ideia de que mesmo sob a bandeira portuguesa toda a gente nas ilhas
sentia-se cabo-verdiano. Chega-se ao 5 de
Julho de 1975 com essa consciência de nação, um bem precioso que outros países
recém-independentes, criados como foram artificialmente na conferência de
Berlim que dividiu a África, gostariam de ter para enfrentar os desafios do desenvolvimento
com um outro foco e motivação. Para alguns deles falou-se de “forjar nações na
luta” para conseguir o grau de unidade que facilita a implementação de
políticas. Paradoxalmente, em Cabo Verde que já era nação antes da
independência procedeu-se a um processo chamado de reafricanização dos
espíritos que tende a abrir feridas e a desconstruir a nação com o falso dilema
Europa ou África quando todos há muito que sentiam confortáveis como
cabo-verdiano. Em consequência, toda
a história foi revista para que o passado aceitável fosse só aquele que traçava
um caminho que culminasse na luta do PAIGC e na independência nacional. Os
pontos altos deviam ser as revoltas porque constituiriam um prelúdio para luta
que viria depois. Também importante era invocar as memórias da fome para fazer
a população eternamente grata aos libertadores e mantê-la enredada nas malhas
da dependência do Estado. No mesmo sentido, reviver um passado de escravatura
foi considerada fundamental para inculcar um sentimento de vítima que precisa
de ser resgatado. Como disse um
ex-Ministro de Educação “a
obra de António Carreira (Cabo Verde: formação e extinção de
uma sociedade escravocrata (1460-1878)) é aquela que mais fez para a produção e sistematização de
elementos teóricos para uma possível unidade entre Guiné e Cabo Verde”. Atingir esse objectivo do PAIGC
de unidade foi a razão por
que o livro se tornou essencial nas escolas e nos círculos de estudos
sobre Cabo Verde. Quanto aos intelectuais, escritores e artistas que realmente
estiveram presentes na emergência da consciência da nação foram considerados
“lixo da nossa história” e ameaçados de serem metidos num saco e lançados ao
mar.Há, pois, uma
razão para a falta de pluralismo no debate de ideias sobre a identidade histórica
de Cabo Verde que empobrece a sua experiência histórica e dificulta aos outros
estudiosos elementos para uma real compreensão do seu percurso ao longo dos
séculos. Viu-se isso no último encontro da Praia e é
notório em eventos institucionais similares, nas actividades universitárias e
nos debates na comunicação social pública.
O Estado, as universidades e a comunicação social não deviam veicular
ideologias e muito menos ideologia única. Mas como não é assim, por isso é que
se depara com activismo de titulares de órgãos de soberania, de académicos e de
jornalistas, sem a devida consideração pela unidade da nação que devem
preservar, a pluralidade de expressão que deve existir nas universidades e o
confronto de ideias das diversas correntes de opinião que se requer dos médias.
Depois de toda a
crise gerada pelo manual da língua cabo-verdiana que foi retirada do sistema de
ensino na sequência do parecer do Ministério Público a considerar que a adopção de um regime de
escrita para o crioulo devia ser aprovada pela Assembleia Nacional, a questão
da oficialização do crioulo regressou à baila pelo PR no encontro internacional da
crioulidade. Talvez estava-se a deixar um tempo para não se ter que enfrentar o
facto de que também o decreto-lei que aprovou o ALUPEC poderá não estar
conforme. Sabe-se que o tema é fracturante, mas mesmo assim pressiona-se,
marcam-se datas para oficializar, sabendo que não são factíveis considerando o tempo exigido para o cumprimento dos
procedimentos necessários para a revisão constitucional. É como se não se desse a
devida atenção à importância de Cabo Verde ser realmente uma nação e que a
manutenção da sua unidade é uma vantagem a preservar e a acarinhar. Em simultâneo
e aparente contradição dá-se a impressão de valorizar a crioulidade apresentando-a
como projecto de futuro para a humanidade. Mas isso parece que nem o professor
da UniCV acredita que o “mundo está a tornar-se crioulo”. Sempre atento às
manobras dos poderes coloniais avisa que poderão estar a promover uma crioulização assimétrica.Humberto CardosoTexto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1279
de 03 de Junho de 2026.
6/5/2026 2:59:56 AM