— Olá, Fábio!
Há quanto tempo! Onde estavas e como estás?
— Tenho andado de um lado para o outro e depois fui a Angola.
— Que bom, Angola! Por que não me disseste que ias a Angola? Levaria algumas coisas e medicamentos para a minha irmã.
— Não foi a tempo, foi uma viagem-relâmpago.
— Que meio de transporte usaste?
— Fui de avião, num voo da TAAG.
— De avião? A passagem da TAAG está muito cara, como conseguiste?
— Gastei toda a poupança que tinha.
— Deve ter sido uma viagem muito importante.
— Sim, Angola é a nossa terra, a única pátria que temos e que nos pertence. Eu morria de saudades dela e precisava de ver a família.
— Certo, e como correu a viagem com a TAAG?
A VIAGEM
Comparada com as viagens anteriores, sobretudo a de 25 de janeiro de 2006, esta viagem correu melhor. Em 25 de janeiro de 2006, já dentro do voo, enquanto os passageiros embarcavam, eu falava ao telemóvel. A aeromoça, tão rude e tão mal-educada, gritava aos meus ouvidos e falava besteiras para mim. “Acho que ela se tinha esquecido da sua tarefa enquanto aeromoça.”Desta vez, foi diferente: tanto as aeromoças como a tripulação foram educadas e simpáticas. Fiquei impressionado com o nível de profissionalismo da tripulação da TAAG.
Igualmente agradável foi a viagem de regresso do dia 2 de outubro de 2025. O voo estava vazio e eram três pessoas a tratar dos passageiros: uma senhora que ficava na cabine e, por vezes, passava, mas eram dois homens que tratavam diretamente dos passageiros com respeito e profissionalismo.
Contudo, há um aspeto que me chamou a atenção: a TAAG, no âmbito da sua política comercial, adotou regras muito restritivas ou de caráter punitivo contra os seus passageiros. Uma vez que o passageiro compra a passagem e marca a data da viagem, a possibilidade de alterar a data, caso tenha um imprevisto, é punida com uma multa superior a 150 dólares americanos, mesmo que o faça antecipadamente.
Todavia, a minha viagem para Luanda e o regresso foram alterados várias vezes pela TAAG. Primeiro, a viagem inicial estava marcada para as 00h00 do dia 26. Quatro horas antes, recebi uma mensagem da TAAG a informar que a viagem tinha sido alterada para as 02h55 da manhã. No aeroporto OR Tambo, em Joanesburgo, o voo já estava preparado para sair antes da hora alterada.
Posto isto, em Luanda, a viagem de regresso estava marcada para o dia 2 de outubro, às 15h30, no Aeroporto Dr. António Agostinho Neto. No entanto, no próprio aeroporto, fui informado de que o voo DT575 Luanda–Joanesburgo sairia do Aeroporto 4 de Fevereiro e não às 15h30, mas sim às 18h30.
Neste caso, a TAAG não deveria compensar os passageiros pelo incumprimento do horário e pela inconveniência, de modo a respeitar os direitos dos passageiros? Uma vez que a TAAG pode alterar uma viagem já marcada, por que o passageiro, quando tem um imprevisto, não pode alterar a sua viagem sem ser penalizado?
— Isso dos direitos dos passageiros e dos consumidores, ou a revogação das leis que eles decretam em Angola, esquece. Ninguém pode ir contra o que eles fazem… E que tal a situação em Angola? Como está neste momento?
ANGOLA
De Angola, eu não sei por onde começar. São muitas coisas que lá acontecem e que são surrealistas para nós, na diáspora, mas normais para os que lá vivem. Talvez não valha a pena falar da situação política ou sociopolítica, mas sim da impressão que tive do corredor Luanda–Catete.
Tio Kiluanji, lembras-te de quando vivíamos em Luanda, em que o troço Luanda–Viana era separado e Catete–Viana não estava ligado? Hoje, tudo está interligado — e de que forma! Tem-se dito que Luanda cresceu muito, mas este crescimento não está associado ao desenvolvimento. Representa, antes, o subdesenvolvimento de uma cidade sem rumo que, durante 50 anos, cresceu de forma desordenada e cujos dirigentes não a conseguem urbanizar para evoluir para uma cidade de classe mundial.
Luanda–Catete está interligada com aldeamentos, o que representa um atraso social na perspetiva de quem por lá passa, como eu.
Na verdade, não é que a população tenha crescido; um número significativo de habitantes de Luanda abandonou a cidade e refugiou-se no estrangeiro. O aumento da população de Luanda deve-se à imigração interna e externa.
1. Aproximadamente 55% da população local saiu do interior do país para o litoral, tendo Luanda sido o maior centro de acolhimento daqueles que procuravam refugiar-se da guerra civil. No entanto, após o fim da guerra, a imigração interna não parou, tendo havido outro incentivo: a imigração económica.
2. Centenas de jovens saem do interior e vão para Luanda, sobretudo do corredor Bié–Benguela, para se dedicarem ao negócio dos mototáxis, que representa um perigo constante para a vida dos passageiros e dos próprios mototaxistas. Estes, muitas vezes, não conhecem o Código da Estrada e as vias em Luanda não são bem sinalizadas, além de a engenharia rodoviária deixar muito a desejar. Gostaria de salientar que a minha irmã sofreu um acidente quando viajava de mototáxi para me visitar. O uso destas mototáxis em Angola, sobretudo em Luanda, é visto como algo normal e aparentemente não incomoda as autoridades competentes.
3. Para agravar a situação, esta população necessita de habitação. Como em Angola não há construção dirigida, a população vai ocupando ou comprando terrenos, e os aldeamentos começam a crescer. Quando começam a erguer paredes, surgem indivíduos oportunistas da comissão do bairro ou do Ministério do Urbanismo, que multam as casas, recebem o dinheiro e, ainda assim, as construções continuam sem urbanização. O troço Luanda–Catete ilustra bem esta realidade.
4. Neste troço, a população não tem água, luz, escolas nem clínicas. As pessoas compram água, armazenam-na em tanques e depois vendem-na aos vizinhos. De um lado há o tanque de água; do outro, a fossa da casa de banho. Deixo à tua imaginação… Nestes aldeamentos, criam-se galinhas, cabras e carneiros, entre outros animais. Há também grupos de criminosos organizados que roubam esses animais.
5. A deslocação nesse troço, por falta de transportes públicos adequados, é feita de candongueiro, como sempre foi. Os passageiros suportam engarrafamentos, condução perigosa e exploração por parte dos taxistas, que fazem linhas curtas e cobram o mesmo preço.
6. O que Agostinho Neto e outros nacionalistas africanos temiam — a exploração do homem pelo homem — está a acontecer em Angola. Durante a minha estadia, não encontrei um candongueiro que fizesse a linha direta dos aldeamentos da Estrada de Catete até à Baixa de Luanda. Os passageiros têm de apanhar vários táxis, esperar em várias paragens e gastar muito dinheiro. Questiono-me se este vai e vem diário compensa.
7. Num desses aldeamentos, vi um rapaz que tinha abatido uma cobra e a levava para mostrar aos amigos. Para minha surpresa, ouvi o meu pai dizer:— Esta cobra não é para exibir, é para comer…
A que ponto chegámos, tio Kiluanji?!
Perguntei-me se o povo kimbundu comia répteis. Muitas vozes e pensamentos tomaram conta da minha mente. Não só os povos se misturaram com o tempo, como também há muitos estrangeiros disfarçados de angolanos nos aldeamentos e bairros, influenciando hábitos, costumes e línguas.
Outro aspeto que me marcou foi o caos na estrada de Catete. Não vi patrulhas da polícia a controlar o trânsito, proteger peões ou sancionar motoristas indisciplinados, como acontece noutros países, por exemplo, na África do Sul.
— Isso não é possível em Angola, Fábio. Sem mudança de consciência política, não haverá infraestruturas sociais nem desenvolvimento. O político serve-se a si próprio…